Foto The Guardian - Turquia - COVID-19

“”O governo mente sobre a situação da Covid-19 na Turquia”, João, português a viver há quase 10 anos na Turquia

9 abril. 1,576,077 casos de pessoas infetadas em todo o mundo. 93,575 mortes e 348,188 pessoas recuperadas.

A Turquia está neste momento com 42,282 infetados pelo novo coronavírus, um número que a posiciona entre os 10 países com mais casos (está atualmente em 7º, logo a seguir ao Reino Unido). Desde que o primeiro caso de COVID-19 foi confirmado, há cerca de quatro semanas, o número de infetados cresce mais de 3000 por dia. A Turquia tem neste momento a taxa de crescimento mais rápida do mundo, de novos casos de infeção.

Ainda assim, as mortes declaradas pelo país são das mais baixas (908) e o Presidente turco considera que as “rodas da economia devem continuar a girar”.

João S. (nome fictício por motivos que à frente se tornarão óbvios) vive na capital da Turquia, Ancara, há quase 10 anos, depois de se casar com uma cidadã turca. João diz que a melhor palavra para resumir a situação atual na Turquia é “charada”: “O governo mente descaradamente às pessoas sobre a situação da Covid-19 e uma parte significativa das pessoas ignora as ordens e recomendações do governo. Ou pelo menos ignorou, enquanto pôde”, começa por dizer-nos.

E avança os exemplos concretos da “charada”: “A Turquia, um país com mais de 80 milhões de habitantes, reportou o seu primeiro caso de Covid-19 a 11 de Março, numa altura em que, mesmo ao lado, no Irão, a epidemia já se tinha espalhado de forma descontrolada. A esta situação, junta-se o facto de o Aeroporto de Istambul ser um dos maiores do mundo e uma das principais, senão mesmo a principal porta de entrada na Europa, de asiáticos e chineses, em particular. Uma parte importante do tráfego de pessoas entre a Europa e a Ásia faz escala em Istambul, incluindo milhões de cidadãos chineses todos os anos. Durante mais de um mês, após o começo da epidemia, mantiveram-se sem quaisquer restrições os voos entre a China e a Turquia, bem como com o Irão, país com o qual a Turquia tem uma fronteira terrestre de milhares de quilómetros, bem como extensas relações comerciais e de turismo. O extremo leste da Turquia é visitado por centenas de milhares de iranianos abastados todos os anos, que aí desfrutam de mais liberdade do que no seu país, a preços acessíveis às suas carteiras cheias de reais iranianos altamente desvalorizados. (O Real Iraniano é a moeda do Irão)”, esclarece-nos.

 

João diz que “com a epidemia descontrolada na China e no Irão, e com a Europa já a reportar numerosos casos, a Turquia continuou aberta ao tráfego aéreo internacional sem restrições e manteve as fronteiras terrestres abertas, sem reportar um único caso de Covid-19, durante semanas”.

O português a viver na capital turca diz ainda que “o sucesso da Turquia em controlar a epidemia foi tanto, que as autoridades do turismo turco fizeram campanhas de promoção da Turquia no Reino Unido, na Alemanha e noutros países europeus, dizendo que ‘a Turquia é o país ideal para passar férias, por não ter coronavírus’….”, conta.

O que se passou no dia 11 de Março, para ter surgido o primeiro caso? Segundo João, “foi nesse dia que a Itália e vários outros países europeus decidiram suspender as suas ligações aéreas com o estrangeiro. Foi também por essa altura que o Banco Mundial anunciou a disponibilização de 50 mil milhões de dólares para ajudar a combater a pandemia. Portanto, no dia em que o governo turco percebeu que já não havia turismo para salvar – porque os voos foram suspensos do lado europeu – e quando o Covid-19 passou a dar direito a ajudas financeiras, surgiu de imediato o primeiro caso. Mais interessante ainda, é que enquanto as fronteiras se mantiveram abertas, não houve contágios. Quando as fronteiras se fecharam, começaram casos uns atrás de outros”. João classifica esta situação de “Charada a la Turca”.

E como é agora a vida na Turquia?, perguntamos-lhe. “O governo começou por proibir as pessoas maiores de 65 anos de saírem de casa. Mas ninguém ligou. Por todo o lado, foi possível ver pessoas de idade a caminhar normalmente. Este domingo passado, 5 de abril, o governo proibiu também os menores de 20 anos de saírem de casa. E está por dias a implementação do recolher obrigatório, a começar algures pela hora do jantar, até à manhã seguinte”.

Os centros comerciais fecharam, uma parte muito significativa das lojas e restaurantes também, “mas ainda é possível fazer algumas compras, pelo menos em Ancara”, refere.

A entrada nas mesquitas foi proibida. João diz que “os sermões são agora transmitidos pelos potentes megafones da chamada para a oração, para toda a gente poder ouvir. Mesmo que não queiramos!”.

Todas as deslocações internas dentro da Turquia estão proibidas. Começaram por ser suspensos os serviços de autocarros e comboios intercidades, e só as pessoas com carro próprio podiam circular. Mas até isso acabou por ser também proibido.

A trabalhar com a esposa a partir de casa, João apenas sai para fazer compras no supermercado e fazer exercício físico em frente ao seu prédio.

O governo prepara-se também para libertar dezenas de milhares de presos, para evitar problemas com a epidemia nas prisões: “Mas os elementos mais perigosos da sociedade turca, como jornalistas e membros da oposição encarcerados, ficam na prisão. Mas na verdade, na prisão é onde estamos todos” – conclui João.

Na Turquia, pelo menos 14 mulheres foram assassinadas desde o início do combate ao coronavírus, lê-se na imprensa internacional. O jornal britânico The Guardian relata ainda a denúncia dos Repórteres sem Fronteiras, que dão conta de sete jornalistas presos na Turquia por denunciar a pandemia e acusados ​​de “espalhar o pânico”. Há pelo menos 385 pessoas a serem investigadas por posts feitos nas redes sociais, com críticas ao governo.

 

 

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