Margarida Rebelo Pinto

“Eu já fui terrivelmente (e até absurdamente) romântica”, Margarida Rebelo Pinto

Hoje é dia de lançamento do livro “A Desordem Natural das Coisas”. Dezassete romances depois de Sei Lá, o seu best-seller mais popular, Margarida Rebelo Pinto escreve uma história protagonizada por Mafalda. Mafalda é a mulher cliché que, segundo a autora, está em cada esquina da nossa convivência. Porque “o mundo está cheio de mulheres sozinhas”. Mas este romance não perde o fio à meada do padrão romântico da escritora.  Ainda que Margarida assuma que o absurdamente romântico seja coisa do passado e que agora vive com “um pé na cama, outro no chão”. É com a escritora e simultaneamente com a mulher de 22, 35 ou 45 anos – sei lá – que trocamos hoje uns dedos de conversa.  

Como é que nasce a ideia para este livro? Há aqui uma mensagem que pretende transmitir?

A elaboração de um romance nunca é linear. Já me aconteceu várias vezes começar um romance e depois pôr de lado, ao estilo tempere e reserve, usando o termo culinário. Isso nunca me assusta, porque sei que tudo tem o seu tempo. Às vezes começo outra coisa, outras, retomo manuscritos já iniciados. Foi o caso. Este romance era para ser a terceira parte das cartas de amor que lancei na primeira década de 2000, o Diário da Tua Ausência e O Dia em que te Esqueci, mas eu tinha tanto mais para dizer, então embalei e assim que lhe ganhei a mão, nunca mais parei.

A ‘Desordem Natural das Coisas’ segue os “caminhos que todos nós, em algum momento, tivemos de percorrer para compreender que o amor, tal como a vida, tem um encanto especial na hora da despedida”. Pode explicar-nos melhor.

Nunca sabemos quando acaba uma história de amor, senão muito tempo depois de ter acabado. Refiro-me a histórias de amor sérias, profundas, daquelas que nos mudam para sempre. Não confundir com paixões fugazes ou aventuras. O amor é outra coisa. E todas as pessoas, pelo menos uma ou duas vezes na vida, vivem uma história de amor séria. No entanto, não basta amar e ser amado, é preciso saber fazer escolhas, querer a mesma coisa e conseguir construir uma vida em comum. Sem essa ligação à realidade, as coisas acabam por perder-se, porque a vida vence sempre. O romance reflete sobre isso mesmo, o que tem mais força? Aquilo que sentimos ou o que a vida nos dá? A desordem manda mais do que ordem, daí eu acreditar na desordem natural das coisas.

Esta história tem traços de histórias ou pessoas reais? Em que se inspirou para escrevê-la?

No início sim, porque reporta às cartas de amor que, na época, foram bastante próximas da realidade. Mas apenas no início. A construção dos dois personagens masculinos tem a ver com dois tipos de homem, o eternamente indeciso que acaba por nunca dar o salto e o aventureiro que arrisca, apesar de estar mais magoado do que o primeiro. A minha heroína Mafalda é quase um cliché dos tempos que correm, porque é uma mulher só, já com os filhos crescidos, a cumprir a travessia do deserto emocional e o mundo está cheio de mulheres sozinhas. Ela é a vizinha do lado de toda a gente, a colega de escritório, a irmã, a nossa melhor amiga. A Mafalda é um retrato das mulheres independentes do nosso tempo.

Os padrões das relações estão sempre presentes nos seus livros. Têm eles em algum momento também algo de autobiográfico?

De certa forma sim, porque a ficção serve para isso mesmo, para o escritor exorcizar os seus fantasmas. Eu já fui terrivelmente (e até absurdamente) romântica. A vida ensinou-me a viver o amor com os pés bem assentes na terra. Como eu costumo dizer, um pé na cama, outro no chão. Citando a Mafalda, a protagonista, não vou voar sem ter onde pousar. Voar é ótimo, mas é preciso saber aterrar e ser feliz com o quotidiano e com a rotina. Por outro lado, este romance vai ao fundo da questão erótica que é indissociável da paixão amorosa. O erotismo é uma espécie de super-alimento das relações, que cria uma magia, uma alquimia única entre duas pessoas que se amam. Acredito que os sentimentos mais sérios e profundos podem ser geradores de uma relação erótica eterna, porque o erotismo é como o amor, como aprender a falara francês ou a tocar piano, também se aprende.

Voltando ao Sei Lá, que teve mais de 40 edições e vendeu mais de 300 mil exemplares, qual foi o maior elogio positivo e crítica que recebeu até hoje sobre o livro? Antes da publicação, a Margarida sentia que Sei Lá seria um best-seller, correto?  😊

Acho que o maior elogio é o livro continuar a vender e tanta gente o ter lido e não o ter esquecido. A critica literária Luisa Mellid-Franco escreveu, na altura, que eu sabia fazer bem jogos de espelhos entre os personagens. Foi uma observação fundamental para a construção de toda a minha obra, porque me tornei obcecada com essa técnica e acabei por a praticar e a declinar em vários romances. Na verdade, nunca mais deixei de o fazer e agora, depois de 17 romances, vejo que já faz parte do meu estilo narrativo, é uma das minhas marcas. Não foi um programado, simplesmente aconteceu.

A propósito dos 50, e uma questão inspirada pela rubrica Sexo Forte do O Independente, como estar “de bem com a vida” após os 50?

Quais 50 ?????  Todos temos a idade que escolhemos. Há dias em que me sinto com 22, quando publiquei a minha primeira crónica, outros com 35, outros com 45, vai variando. Não sinto o peso da idade em nada. Parece estranho, mas é verdade. Se calhar é mesmo por estar de bem com a vida. Tenho uma família de sonho, o meu trabalho é a minha maior paixão depois da família, nunca me canso de escrever e tenho imensa saúde e uma energia inesgotável. O meu coração nunca mais me deu sobressaltos. Sinto uma enorme gratidão por ter tido tanta sorte e tanta proteção, e acredito que a gratidão é um dos segredos da felicidade. O outro é poder dar e receber mimo daqueles que amamos.

 

“Margarida Rebelo Pinto sempre quis ser escritora. Quando era criança recuperava livros antigos e desde muito cedo começou a escrever cartas e contos. Aos 8 anos, a febre reumática obrigou-a a algum isolamento, o que acentuou o seu lado sonhador e romântico. Iniciou-se na imprensa escrita com 22 anos no lendário Independente como cronista, um dos seus géneros de eleição. Ao longo das últimas três décadas tem tido uma presença regular na imprensa e na televisão enquanto cronista, ficcionista e comentadora. Nunca se cansa de escrever e de falar sobre relações, amor e sexo. Tinha 33 anos quando lançou Sei Lá, o romance bestseller que mudou a sua vida e revolucionou a literatura em Portugal. A sua vasta obra literária conta com mais de 25 obras publicadas, nas quais explora o género epistolar, a literatura infantil, o romance histórico e o romance urbano contemporâneo. Os seus livros conquistaram leitores em vários países da Europa, no Brasil e na América Latina. Escreve todos os dias de manhã e, se a inspiração a apanha a trabalhar, só pára quando o sol se põe. Gosta de ler, de fazer caminhadas, de ouvir jazz, de leite de aveia e de comida japonesa. É mãe de um rapaz e tia orgulhosa de cinco sobrinhas e um sobrinho. O seu grande amor é a sua família”.
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