“Apaixonei -me pela vontade que Snu tinha de mudar o mundo”, Inês Castel-Branco

Com Inês Castel-Branco e Pedro Almendra nos papéis principais, Snu é um filme co-escrito e realizado por Patrícia Sequeira.

Aborda a polémica relação entre Ebba Merete Seidenfaden, a dinamarquesa conhecida como Snu Abecassis, que veio para Portugal e fundou as Publicações Dom Quixote, e Francisco Sá Carneiro, fundador do PPD-PSD e primeiro-ministro de Portugal durante 11 meses.

Patrícia Sequeira contou também com o apoio da historiadora Helena Matos na investigação, de forma a retratar a época marcada por um regime, contra a vontade do qual Snu criou uma editora, publicando autores incómodos, em nome da partilha de conhecimento com os portugueses.

Snu estreou a 5 de março e dá-nos a conhecer uma mulher culta, discreta e decidida a mudar o mundo. Inês Castel-Branco é, brilhantemente, Snu. E este é um dos motivos para ir ao cinema.

Contas que te apaixonaste pela Snu Abecacis. Por que aspetos, em especial?

Apaixonei -me pela vontade que Snu tinha de mudar o mundo, de ajudar os pouco privilegiados, de deixar uma marca.

Daquilo que leste e investigaste sobre Snu e Sá Carneiro, o que mais te impressionou na relação de ambos? Como imaginas esta paixão/amor dentro de portas? 

Impressionou-me a coragem que os dois tiveram em assumir um amor quando já tinham famílias e quando viviam numa sociedade em que poucos o faziam. Tenho algumas imagens dos dois muito apaixonados, a ouvir música clássica, a jogar damas chinesas e a namorar.

Para este filme, contactaste com pessoas que conviveram de perto com Snu. Por exemplo? 

Contactei sim, com a Virgínia Caldeira, que era a sua secretária, com a Conceição Monteiro, secretária do Sá Carneiro e amiga dos dois e com mais uma amiga. A conversa com a Virgínia foi deliciosa. Talvez por haver um distanciamento e respeito profissional…. Fez-me perceber que a Snu era diferente do que aparentava. Que a tal frieza nórdica era apenas contenção e que de fria não tinha nada.

O filme já atingiu mais de 50 mil espectadores. E entre os elogios/criticas de espectadores no teu facebook, há quem destaque o sotaque. Quais foram os maiores desafios desta interpretação?

Não consigo enumerar um só desafio. Tudo foi desafiante. Até o frio que estava durante a rodagem. Os vários sotaques, a tal contenção, a mudança ao longo do tempo e o que se passava ao mesmo tempo na minha vida. A vontade de fazer bem e de não defraudar a mulher que ela foi.

 

"Apaixonei -me pela vontade que Snu tinha de mudar o mundo", Inês Castel-Branco Snuu

Inês Castel-Branco interpreta Snu

Recentemente, uma atriz portuguesa que está prestes a fazer 60 anos, lamentava o facto de ouvir comentários como: “és velha para atriz”. O teu comentário?

Acho que acontece, sim, esta ditadura da imagem. Acho que estamos a chegar a um extremo em que conta mais o número de seguidores e de plásticas. Mas tenho aprendido que, na vida, tudo é cíclico. Portanto tenho esperança que dê a volta. Os atores que mais me tocam são mais velhos que eu. Carregam nos olhos essa vida que já passou e que traz tanto às cenas.

“Desde que me lembro que ouvia a minha mãe dizer-me ao ouvido: “as mulheres têm super-poderes”
Lembro-me de olhar para ela e ter a certeza que estava a dizer a verdade. 
Anos mais tarde pedia nas cartas ao Pai Natal para acordar homem. Achava que a minha vida ia ser mais fácil se fosse homem. Afinal o mundo era deles.
Que sorte que tenho tido de crescer rodeada de mulheres e homens fortes que me ensinaram a ter orgulho em ser mulher mesmo que seja uma luta diária e muitas vezes inglória. 
E sim, temos super-poderes. Disso continuo a não ter dúvidas” – Inês Castel-Branco, in facebook

 

Quais são as mulheres e homens fortes da tua vida? 

As da minha família, as minhas amigas, os meus amigos , os meus irmãos, o pai do meu filho, muitos que se cruzaram comigo. No fundo todos os que sabem que sim, nós temos super poderes e que se inspiram com isso em vez de se sentirem afrontados(as).

Recentemente foste capa da revista GQ, como rosto do combate à violência doméstica. Quais são as tuas grandes causas?
Aquelas que me tocam. Aquelas que abrangem pessoas que não se conseguem proteger.

Tenho estado muito ligada às vítimas dos incêndios, às crianças em instituições, às vítimas de violência doméstica, aos sem-abrigo, aos direitos humanos. Acho que pessoas como eu, privilegiadas, têm e devem ajudar quem não tem as mesmas oportunidades. E depois também tenho alguma voz e quero usá-la da melhor maneira.

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