“Estou solidária com os motoristas. Menos solidária estou com pessoas como aquele senhor que – relatou uma rádio – levou 3 bidons no porta-bagagem!”, Raquel Palermo, moradora em Lisboa

Governo define 310 postos prioritários e limita abastecimento: Cada veículo automóvel só poderá abastecer gasolina ou gasóleo num máximo de 15 litros

Greve foi convocada pelo Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas, por tempo indeterminado, para reivindicar o reconhecimento da categoria profissional específica, que passa por uma revisão salarial (dois salários mínimos).

“Não há profissão que consiga parar o país como nós fizemos”, referiu em declarações ao Público, Manuel Mendes, o delegado sindical do Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) na região Norte.

Corrida aos postos de combustível, centenas de metros de fila para abastecer, ânimos exaltados no trânsito, aeroportos na reserva de emergência, e mini férias da Páscoa em risco. 

Ao Diário de Notícias, o presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), António Nunes, chama alerta para as “manifestações de descontentamento generalizado por parte da população, tendo em conta a época festiva”. E apela ao Governo para conseguir tréguas, evitando possíveis “tumultos”.

A Páscoa é também o contexto que leva a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) a apontar que a greve dos camionistas “vai trazer um impacto negativo ao setor e à economia nacional”. Também a CTP fala da necessidade de um entendimento rápido.

Mas no caos da cidade, há também quem, ainda que a racionar combustível para passar o domingo de Páscoa com a família, esteja solidária com estes motoristas e utilize o contexto como um teste para o futuro:

“Estamos nós preparados para descarbonizar? Porque não aproveitar esta oportunidade para repensar os nossos hábitos?”, pergunta Raquel Palermo.

Raquel, 44 anos,  mestranda em urbanismo sustentável e ordenamento do território, conta que, à parte das preocupações ecológicas, está “solidária com os motoristas de transportes de materiais perigosos em greve, pois sei que correm riscos, na sua profissão, que a maior parte das pessoas não corre. Por isso devem ser ouvidos”.

Menos solidária está “com as pessoas que correram para as bombas para encher o depósito até ao máximo, por precaução, por não sabermos quantos dias mais a greve irá durar. Pessoas como aquele senhor que – relatou uma rádio – levou 3 bidons no porta-bagagem!”

Ontem, quando ia buscar o seu filho ao treino de futebol, perto das onze da noite, Raquel recorda-nos o que viu: “filas intermináveis nas bombas. É claro que há certamente pessoas que precisam de pôr combustível para ir trabalhar… ou porque vão de férias ver a família. Mas tinham todas de o fazer ontem? E hoje? Se cada um fosse quando realmente precisasse de combustível, as filas não teriam aquele tamanho”.

Raquel, que também tinha planeado ausentar-se nas férias da Páscoa, optou por “parar o carro – para racionar o combustível – e tenho andado a pé pelo bairro nas compras e outras atividades. Quando tenho reuniões no centro da cidade, vou de metro ou autocarro, como habitualmente faço. Tenho a sorte de morar em Lisboa, é certo, o que não é verdade para todos. E tenho a sorte de ter uma profissão que me permite ter flexibilidade de horários e deslocações. Mas, para mim, estes dias são um desafio. Um teste para um futuro que não está tão distante como pensamos. Estamos nós preparados para descarbonizar? Para diminuir a pressão que fazemos diariamente sobre o planeta?”

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