É preciso trocar a inteligência por uma bimby, Por Nuno Ramos de Almeida

Sempre achei que a inteligência está sobrestimada. A primeira coisa que as pessoas inteligentes fazem numa festa é embebedarem-se, tentando atingir um feliz estado de semicoma, para poderem entrosar-se melhor com o resto dos habitantes do divertimento. Como se alguma coisa os impedisse de se divertirem quando têm os miolos ligados. Se o álcool não funciona, ficam em pânico. De alguma maneira, é como se tivessem a dançar, com uma espécie de visão crítica, um drone que levita sobre eles, que os observa e que os vai alertando sem parar: “Que absoluta figura de parvo eu estou a fazer.”

Nem o facto de todos os outros estarem exatamente a fazer o mesmo os alivia. Depois, para confirmar esta análise, há a quantidade de imbecis que conhecemos na juventude e na faculdade que, apesar de não deverem nada à dita cuja inteligência, grimpam e grimpam até lugares em que podem lixar a vida dos outros.

É impressionante como as organizações tendem a colocar os imbecis em chefes, pensando que é a forma de eles não incomodarem quem está a trabalhar, mas esquecendo-se de que quando estão em cima, se calha aparecerem na empresa, podem chatear muito mais. Eles não só são empurrados para a chefia, como também têm a característica genética muito mais valorizada, aqui no burgo, do que a quantidade de neurónios: uma coluna vertebral muito flexível ou mesmo a total ausência dela, à imagem e semelhança dos vermes.

Acresce que muitas dessas pessoas desadaptadas devido à maldita inteligência têm a ingenuidade de pensar que lhes pedem, profissionalmente, que exerçam um sentido crítico e digam a verdade. Nada mais falso, nas empresas, os chefes, na maioria da tribo dos invertebrados, que se dividem nas subespécies dos betos, saloios ou saloios-betos (marca branca), não querem ouvir a verdade. Pretendem apenas que os bajulem ou, pelo menos, que as pessoas estejam caladas e “não incomodem”. E mesmo a população normal prefere não se defrontar com verdades incómodas.

A cultura da maioria dos locais de trabalho é a do “país engravatado a assoar-se na gravata por engano”, que descrevia Alexandre O’Neill: mais vale cair em graça do que ser engraçado, e sobretudo devem resolver-se os problemas por levitação, magias com pedras de quartzo, ou leituras de borra de café. O comportamento normal, para resolver qualquer problema, é esperar que eles passem e fingir que anda tudo bem.

Cara amiga e caro amigo, se tiverem filhos inteligentes, não desesperem, a sociedade está toda feita para que isso seja quase impossível. Se mesmo assim essa desgraça não for evitada, ensinem-nos a fazerem de parvos, pode ser que acabem em chefes.

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